Num exercício primário de reconstituição, Luisa é branca, tem cabelo loiro, curto e cacheado, e os olhos claros. É um pouco mais baixa que eu. Vive em Brasília, onde estuda Ciências Sociais na UnB. Está na casa de uma amiga, no início de Laranjeiras. Enquanto esperamos o 497, virados do que para qualquer um poderia ser "um quase-exagero na liberdade dos personagens", ainda não sabemos, mas esse será nosso último contato.
Na fotografia da memória, lá pelas quatro da manhã, vocês dois estão sentados no chão da Joaquim Silva. Me aproximo, falamos sobre o Mac, um amigo em comum improvável que me situa na conversa. Reforço a coincidência significativa que é ver você tantas vezes, no eixo Lapa-Glória, ao longo daquela madrugada-caótica-sem-fim. E que reparei em você - que estava com S. Ele, ao seu lado, entre um trago e outro, tocava algo no violão. A desinibição proveniente do excesso alcoólico me faz pedir o violão e tocar uns trechos de músicas sem qualquer precisão, mas com alguma convicção.
Mas logo a conversa volta a ser sobre o que realmente importa, você, que explica a situação e me propõe um desafio, quase anedótico, pra alcançar o céu. Desafio aceito e realizado, fiz o que foi possível e necessário para lhe beijar - e nos beijamos!
Sento com vocês no chão. Ficamos ali por algum tempo, entre músicas, goles de cerveja quente e tragos intermináveis. Resquícios de um exercício da paixão à primeira vista, dos desafios, do carinho singelo, em meio à madrugada-caos.
Até o dia amanhecer e constatarmos a necessidade de um café. Caminhamos poucos passos até a padaria na esquina da Gomes Freire com a Riachuelo. Agora mais civilizados, entre o café com pão na chapa e as reflexões sobre a vida e aquela loucura toda, enquanto emulamos a própria loucura da liberdade.
Passados uns 50 minutos, saímos da padaria em meio ao trânsito do dia útil, buzinas e pessoas apressadas rumo aos pontos de ônibus do dia que amanhece claro. Caminhamos lentamente, eu, Luisa e S, de mãos dadas, com destino a Escadaria Selarón. Nós três nas ruas provocando os casais. Entre risos, leves e calmos, e o sol que nos toca a pele, minha mão avança por entre seu vestido preto.
A cidade acordada nos lembra dos nossos compromissos inegociáveis. Planejamos outros momentos, para dar continuidade ao sonho improvável desse encontro, presente do acaso, mas que nunca realizamos. Esperamos o 497 com Luisa. E a vida volta a ser vida normal.
Dentro da cabeça, Brasília é Luisa, do Ruspo, há exatos cinco anos, é um fragmento quase permanente da memória.